Campanha de monopiles do Nordlicht I concluída: o que os marcos da eólica offshore sinalizam para o Brasil
A instalação do último monopile pela DEME em um projeto de 980 MW no Mar do Norte estabelece um referencial logístico que o setor brasileiro de eólica offshore — ainda em formação — precisará, em algum momento, alcançar.
O FATO
Segundo o Offshore Engineer, a DEME concluiu a campanha de instalação de monopiles no parque eólico offshore Nordlicht I, da Vattenfall, no Mar do Norte alemão, posicionando o 68º e último monopile no projeto de 980 MW. O marco encerra a fase de instalação de fundações de um dos maiores empreendimentos eólicos offshore atualmente em execução nas águas europeias.
A conclusão de 68 monopiles representa o fim de uma campanha discreta e logisticamente intensiva. A instalação de monopiles nessa escala exige embarcações de içamento pesado construídas para essa finalidade, preparação precisa do leito marinho e operações marítimas coordenadas ao longo de um cronograma offshore estendido. O relatório de origem não divulgou detalhes adicionais sobre especificações das embarcações, duração da campanha ou estrutura de subcontratação.
POR QUE ISSO IMPORTA
Para leitores cujo foco principal é o setor de óleo e gás do Brasil, um marco de monopile no Mar do Norte alemão pode parecer tangencial. Vale examiná-lo, no entanto, porque a cadeia de suprimentos de eólica offshore que a Europa vem estruturando ao longo das últimas duas décadas é a mesma base de infraestrutura da qual o Brasil precisará se valer — ou desenvolver domesticamente — à medida que suas próprias ambições em eólica offshore avançam do arcabouço regulatório para a execução física.
O portfólio brasileiro de eólica offshore cresceu substancialmente no papel. Dezenas de pedidos de licenciamento ambiental foram protocolados junto ao IBAMA para projetos no Nordeste e na margem equatorial, e o governo federal tem trabalhado para estabelecer um ambiente regulatório habilitador. O que esses projetos compartilham com o Nordlicht I não é a geografia nem a lâmina d'água, mas o desafio de engenharia fundamental: levar fundações de aço de grande diâmetro ao leito marinho em escala, dentro do prazo, em condições de mar aberto. A distância entre a posição atual do Brasil e o ritmo operacional demonstrado pela DEME no Nordlicht I é um referencial útil para avaliar quanta capacidade industrial ainda precisa ser construída ou contratada.
A dinâmica DEME–Vattenfall no Nordlicht I também ilustra um modelo de relacionamento entre contratante e desenvolvedor que os desenvolvedores e reguladores brasileiros precisarão analisar com cuidado. Em mercados maduros de eólica offshore, os contratantes de instalação de primeira linha detêm alavancagem significativa: operam uma frota global limitada de embarcações de içamento pesado e de instalação de monopiles adequadas, programam campanhas com anos de antecedência, e sua disponibilidade condiciona diretamente os cronogramas dos projetos. Os desenvolvedores brasileiros que ingressam nesse mercado — sejam empresas independentes de renováveis, grupos de energia diversificados ou operadores com histórico em óleo e gás — competirão pelas mesmas janelas de embarcação que projetos europeus, asiáticos e norte-americanos. Os requisitos de conteúdo local, característica estrutural da política energética brasileira, acrescentam mais uma camada de complexidade: as cadeias de fornecimento de embarcações e componentes existentes hoje são quase inteiramente não brasileiras, e a construção de alternativas domésticas demanda tempo medido em anos, não em trimestres.
Para a Petrobras especificamente, a eólica offshore é um elemento declarado de seu planejamento estratégico, com a empresa tendo sinalizado interesse em conceitos de eólica offshore flutuante adequados às condições de águas profundas do Brasil. A campanha do Nordlicht I é um projeto de monopile em fundação fixa e lâmina d'água rasa — tecnicamente distinto das plataformas flutuantes que seriam necessárias na maioria dos cenários brasileiros de eólica offshore. Essa distinção é relevante. A eólica offshore flutuante encontra-se em um estágio anterior de maturidade comercial globalmente, e os requisitos de embarcações de instalação, os conceitos de fundação e a engenharia de ancoragem envolvidos diferem substancialmente do paradigma do monopile. O caminho brasileiro para a eólica offshore em águas profundas não é, portanto, simplesmente uma questão de replicar o que a DEME executou no Mar do Norte; requer um conjunto tecnológico diferente, ainda em processo de validação em escala comercial em projetos-piloto em outras regiões.
Para a cadeia de suprimentos brasileira — fabricantes de aço, operadores portuários, empresas de serviços marítimos e firmas de engenharia — a conclusão do Nordlicht I é um dado em um argumento mais longo sobre onde se posicionar. O mercado de instalação eólica offshore é real, está em crescimento e demanda competências que se sobrepõem de forma significativa àquelas já presentes no setor brasileiro de serviços de óleo e gás. Logística marítima de içamento pesado, gerenciamento de cabos subsea, sistemas de HSE offshore e gestão de projetos para campanhas complexas com múltiplas embarcações são competências existentes no mercado brasileiro. A questão para os fornecedores locais é como adaptar e certificar essas competências para um ambiente regulatório e contratual específico para eólica, e como se engajar com desenvolvedores internacionais cedo o suficiente para ser considerado nos escopos de projetos brasileiros.
A ANEEL e os órgãos regulatórios adjacentes à ANEEL, juntamente com o MME, também acompanharão a forma como os reguladores europeus gerenciaram a interface entre o desenvolvimento da eólica offshore e os usos marítimos e pesqueiros preexistentes — uma tensão que tem sido aguda no Mar do Norte alemão e que se repetirá no Nordeste brasileiro, onde comunidades de pesca artesanal e áreas de concessão de eólica offshore tendem a se sobrepor.
CONTEXTO
O Nordlicht I se insere em uma aceleração mais ampla de adições de capacidade eólica offshore na Europa, impulsionada por considerações de segurança energética no pós-2022 e por metas de descarbonização de longa data. A escala de 980 MW do projeto e o total de 68 monopiles refletem o movimento contínuo da indústria em direção a turbinas maiores sobre fundações menos numerosas e de maior porte — uma tendência que simplifica parte da logística ao mesmo tempo em que exige equipamentos de instalação mais pesados.
O setor brasileiro de eólica offshore permanece em fase pré-FID para praticamente todos os projetos atualmente em desenvolvimento. O contraste com o ritmo operacional visível no Mar do Norte é uma característica estrutural da posição em que o Brasil se encontra na curva de aprendizado da eólica offshore, e não um reflexo de qualquer decisão isolada de política ou investimento. Fechar essa lacuna exigirá ação coordenada entre desenvolvedores, reguladores, autoridades portuárias e a cadeia de suprimentos doméstica — um processo que os mercados europeus levaram aproximadamente quinze anos para consolidar.