Incidente com WTIV em Esbjerg levanta questões sobre o risco de manuseio de pás em porto
Um evento de perda de controle durante ventos fortes danificou pás de turbinas eólicas em um porto dinamarquês — um alerta de que operações com WTIV envolvem exposição significativa antes mesmo de os navios deixarem o cais.
O FATO
De acordo com The Maritime Executive, um navio de instalação de turbinas eólicas (WTIV) perdeu o controle no Porto de Esbjerg, na Dinamarca, em uma manhã de quarta-feira em junho, danificando pás de turbinas eólicas destinadas a um parque eólico offshore. Ventos fortes e condições meteorológicas adversas são apontados como a provável causa do incidente.
O evento ocorreu no cais, ou seja, o navio ainda não havia partido para o local de instalação. As pás — entre os componentes logisticamente mais sensíveis nas cadeias de suprimento de energia eólica offshore — sofreram danos durante o episódio de perda de controle.
Nenhum detalhe adicional sobre a identidade do navio, o projeto de parque eólico envolvido ou a extensão dos danos estava disponível no momento da publicação.
POR QUE ISSO IMPORTA
Para profissionais offshore brasileiros, um incidente dessa natureza em um porto do norte europeu pode parecer geograficamente distante. O setor de energia eólica offshore do Brasil, no entanto, encontra-se em um estágio em que as lições operacionais e logísticas contidas neste evento têm relevância direta — especialmente à medida que o país avança em direção aos seus primeiros projetos eólicos offshore em escala utilitária.
O Porto de Esbjerg é um dos hubs de logística de energia eólica offshore mais experientes do mundo, lidando rotineiramente com cargas de pás, estocagem de monopilares e operações com WTIV. Se um evento de perda de controle pode ocorrer ali sob condições meteorológicas adversas, isso evidencia que o risco portuário não é função exclusiva da inexperiência — é uma característica estrutural do manuseio de componentes muito grandes e aerodinamicamente sensíveis em berços abertos ou semiabrigos. As pás, por sua geometria, apresentam superfícies significativas de carga de vento mesmo quando estão no solo. Um WTIV em porto, com guindastes aparelhados ou componentes estocados no convés, não se encontra em um estado de risco neutro.
Para o Brasil, isso tem relevância no nível do planejamento. Os portos atualmente em avaliação ou em desenvolvimento inicial para logística de energia eólica offshore — no Nordeste e no Sudeste — precisarão considerar os perfis meteorológicos específicos de suas localizações. Os regimes de vento que tornam o recurso eólico offshore brasileiro atrativo são os mesmos que podem complicar o manuseio de pás no cais. O projeto da infraestrutura portuária, as janelas operacionais de tempo e os requisitos dos marine warranty surveyors precisarão ser calibrados em conformidade.
Há também uma dimensão de cadeia de suprimentos que merece atenção. Pás danificadas não são reparáveis em campo em nenhum sentido significativo — uma pá que sofre dano estrutural durante o manuseio portuário normalmente exige substituição, não reparo. Em uma cadeia de suprimentos global já sujeita a pressões de prazo de entrega, um único incidente portuário pode se desdobrar em atrasos no cronograma do projeto de semanas ou meses. Para os desenvolvedores de projetos brasileiros e seus financiadores, essa é uma categoria de risco que pertence aos testes de estresse em project finance, não apenas aos registros de HSE.
O próprio mercado de WTIV é relevante para as ambições do Brasil em energia eólica offshore. A frota global de navios capazes de instalar turbinas de grande porte é limitada, e a disponibilidade de embarcações é uma restrição conhecida nos cronogramas de projetos em todo o mundo. Qualquer incidente que retire um WTIV de operação — mesmo temporariamente para inspeção ou reparo — aperta um mercado já restrito. Desenvolvedores brasileiros que planejam campanhas de instalação estarão competindo pelos mesmos slots de embarcações que projetos europeus, norte-americanos e asiáticos. Incidentes que afetam a disponibilidade de navios ou que desencadeiam revisões regulatórias dos procedimentos operacionais em porto têm efeitos indiretos, mas reais, sobre essa competição.
Do ponto de vista regulatório, a Marinha do Brasil e a ANP precisarão, eventualmente, desenvolver ou adaptar frameworks para operações de WTIV em portos e águas brasileiras. Precedentes internacionais — incluindo investigações de incidentes como este em Esbjerg — provavelmente informarão esses frameworks. O setor de petróleo e gás offshore no Brasil acumulou décadas de cultura de investigação de incidentes; o emergente setor de energia eólica offshore se beneficiará de aplicar esse mesmo rigor desde o início, em vez de tratar o manuseio de pás no cais como um problema logístico, e não como uma operação de segurança crítica.
CONTEXTO
O setor de instalação de energia eólica offshore tem registrado uma série de incidentes logísticos e portuários de grande repercussão nos últimos anos, à medida que o tamanho dos componentes de turbinas escalou mais rapidamente do que a infraestrutura portuária e os procedimentos de manuseio em alguns locais. A tendência em direção a rotores maiores — com pás que ultrapassam 100 metros de comprimento — tornou cada componente individualmente mais exposto à carga de vento durante o manuseio em solo e aumentou as consequências de qualquer falha isolada de manuseio.
O setor de petróleo e gás offshore brasileiro oferece uma analogia útil: os primeiros anos do desenvolvimento do pré-sal exigiram investimentos significativos em logística portuária no Açu, em Itaguaí e em outras instalações antes que o ritmo operacional se tornasse rotineiro. A energia eólica offshore exigirá uma curva de aprendizado comparável, e incidentes em mercados maduros oferecem lições de baixo custo — desde que o setor esteja prestando atenção.
Fonte: THE MARITIME EXECUTIVE