Licitação do FPSO de Albacora chega ao prazo final após longa trajetória
Uma segunda tentativa, uma lista ampliada de pré-qualificados e uma estrutura BOT: a Petrobras aposta em um modelo contratual distinto para viabilizar o próximo ciclo de um campo maduro.
O FATO
Segundo o Petronotícias, a Petrobras deve manter 27 de julho como prazo final para recebimento de propostas na licitação do FPSO que operará no projeto de revitalização do campo de Albacora, localizado na Bacia de Campos. A data foi confirmada por fonte que acompanha o processo de perto. A licitação foi originalmente publicada em março de 2025 e passou por diversas postergações desde então.
Esta é a segunda vez que a Petrobras busca contratar uma nova plataforma para Albacora. O primeiro processo, estruturado sob um modelo de afretamento, recebeu propostas da BW Offshore e da Ocyan, mas não avançou em razão de divergências de preço. O processo atual adota uma estrutura BOT (Build, Operate, Transfer), pela qual o vencedor operará a embarcação por um período definido antes de transferir a responsabilidade à Petrobras.
Onze empresas foram pré-qualificadas para esta rodada: Modec, Shapoorji Pallonji, Yinson, CNOOC Energy Technology, Saipem, BW Offshore, MISC, SBM Offshore, Altera Infrastructure, COOEC e Ocyan. O novo FPSO está dimensionado para produzir até 120.000 barris de óleo por dia, operar em lâmina d'água de 670 metros e permanecer em serviço por no mínimo 20 anos. O primeiro óleo é esperado após 2031. A Petrobras detém 100% de participação no campo de Albacora, ao passo que o reservatório de Forno — alvo da primeira fase do projeto — é compartilhado com a acumulação Bloco Norte de Brava, conhecida como Manjuba, com a PPSA gerindo o contrato de partilha de produção aplicável.
POR QUE ISSO IMPORTA
A migração do modelo de afretamento para uma estrutura BOT é a decisão de desenho mais relevante desta licitação e merece leitura cuidadosa. Em um afretamento convencional, o operador assume o risco de propriedade desde o primeiro dia e retém o ativo ao longo de toda a sua vida útil; o contratante do FPSO recebe uma diária com exposição limitada ao desempenho de longo prazo do campo. No BOT, o contratante financia, constrói e opera a unidade — absorvendo o risco de capital upfront — para, posteriormente, transferir o ativo à Petrobras. Essa estrutura redistribui a exposição financeira ao longo da linha do tempo do projeto, reduzindo o compromisso de capital de curto prazo da Petrobras e impondo maiores exigências ao balanço e à capacidade de financiamento do contratante.
Para as onze empresas pré-qualificadas, isso significa que a capacidade de estruturar project finance — ou de absorver o FPSO em balanço próprio — é tão relevante quanto a competência de engenharia. Nem todos os contratantes de FPSO operam com estruturas de capital idênticas, e o modelo BOT tende a favorecer players com acesso a mercados de dívida de longo prazo ou com sólido suporte de controladora. A amplitude da lista de pré-qualificados, que inclui contratantes da Ásia, da Europa e do Brasil, reflete a competição global por esse tipo de contrato. Indica também que a Petrobras mantém suas opções abertas em um amplo espectro de modelos comerciais e de financiamento.
O escopo de revitalização acrescenta outra camada de complexidade. O projeto está estruturado em fases: a primeira tem como alvo o reservatório de Forno, no pré-sal, seguida pelos reservatórios do pós-sal. Operar em dois tipos distintos de reservatório — com características de fluido, regimes de pressão e perfis de produção diferentes — dentro de uma única campanha de FPSO exige uma plataforma projetada com flexibilidade de processamento suficiente. A especificação de capacidade de 120.000 bbl/d e vida operacional mínima de 20 anos em 670 metros de lâmina d'água posiciona esta como uma unidade de porte médio, porém tecnicamente exigente — não uma solução brownfield simplificada.
A participação da PPSA na porção Forno/Manjuba introduz uma camada de governança de partilha de produção que não se aplica ao campo de Albacora em si. Para o contratante vencedor do FPSO, isso implica interagir simultaneamente com dois arcabouços contratuais e regulatórios distintos — uma complexidade prática que operadores experientes já terão precificado em suas propostas.
Para a cadeia de fornecimento offshore brasileira, o modelo BOT traz implicações ambivalentes. Por um lado, concentra o valor contratual — engenharia, suprimentos, construção, financiamento e operações — nas mãos do contratante do FPSO, o que pode limitar o espaço para que requisitos de conteúdo local sejam exigidos ao nível do operador de campo. Por outro lado, um compromisso operacional de 20 anos cria uma longa janela para que serviços locais, tripulação e contratos de manutenção se desenvolvam em torno da unidade. As regras de conteúdo local da ANP serão aplicáveis, mas a forma como serão estruturadas dentro de um framework BOT — e como a conformidade será monitorada ao longo das fases de construção e operação — é uma questão que merece acompanhamento à medida que os termos contratuais se tornem públicos.
O histórico desta licitação também importa como contexto para o que vem a seguir. O fracasso da primeira rodada em termos de preço sugere que o modelo de afretamento original não produziu propostas comercialmente aceitáveis. A estrutura BOT é, em parte, uma resposta a esse resultado — um redesenho destinado a atrair um conjunto de licitantes mais amplo ou com motivações distintas. Se a nova estrutura resolve a tensão de precificação subjacente, ou simplesmente a redistribui, ficará mais claro quando os envelopes forem abertos e a avaliação da Petrobras tiver início.
CONTEXTO
Albacora não é um ativo de fronteira. Localizado aproximadamente 110 quilômetros a leste do Cabo de São Tomé, ao largo do litoral norte do estado do Rio de Janeiro, o campo produz há décadas por meio do semi-submersible P-25 e do FPSO P-31. O projeto de revitalização representa um esforço deliberado para estender a vida produtiva do campo, acessando reservas — em especial no pré-sal de Forno — que não integravam o plano de desenvolvimento original. Esse tipo de redesenvolvimento de campo maduro, combinando infraestrutura legada com novos tie-backs subsea a um FPSO de nova geração, é um padrão que se repetirá em toda a Bacia de Campos à medida que campos mais antigos se aproximem do fim de seus perfis de produção originais.
O modelo BOT em si não é novidade no mercado brasileiro, mas sua aplicação em um contexto de revitalização — e não em um desenvolvimento greenfield — merece registro. O resultado desta licitação fornecerá um ponto de referência para como a Petrobras e o mercado precificarão e estruturarão contratos similares nos próximos anos.
Fonte: PETRONOTÍCIAS