Mulheres representam 1% da força de trabalho global de marítimos: o que os dados indicam
Uma nova pesquisa setorial atribui um número preciso a uma lacuna de longa data — e a enquadra, pela primeira vez, como um problema de oferta de tripulação, não apenas como uma iniciativa de diversidade.

O NOTICIÁRIO
Segundo a Marine Insight, citando o ICS Maritime Barometer Report 2025-2026 — pesquisa realizada com lideranças seniores do setor de navegação em todo o mundo —, as mulheres respondem por apenas 1% da força de trabalho global de marítimos. O número apresentou pouca variação nos últimos anos, apesar dos compromissos reiterados pela indústria no sentido de ampliar o recrutamento.
O relatório situa a lacuna de gênero dentro de um desafio mais amplo de oferta de tripulação: um contingente de marítimos experientes que envelhece e se contrai, e que o setor tem tido dificuldade em recompor. Notavelmente, os executivos consultados demonstraram mais confiança na resolução desse déficit de mão de obra do que no enfrentamento de outras pressões, incluindo conformidade regulatória, acesso a financiamento governamental e volatilidade dos mercados de frete.
O mesmo relatório aponta indicadores iniciais de melhora no bem-estar dos marítimos. Um índice que acompanha a satisfação no trabalho e as condições de bem-estar registrou alta no último trimestre de 2023, atribuída à melhor conectividade à internet a bordo, ao aprimoramento das condições de bem-estar e à maior atenção à saúde mental no mar. No campo do treinamento, novos marcos de referência estão sendo estabelecidos para preparar tripulações para funções relacionadas à descarbonização — incluindo o manuseio de combustíveis alternativos — e estão sendo escalados por meio de programas Train-the-Trainer em instituições de ensino marítimo.
POR QUE ISSO IMPORTA
A mudança de enquadramento presente neste relatório merece atenção. Durante a maior parte da última década, as discussões sobre mulheres no setor marítimo foram estruturadas como conversas de responsabilidade social corporativa — relevantes em princípio, mas em grande medida dissociadas do planejamento operacional. O ICS Barometer, conforme descrito, integra a diversificação de gênero à resposta ao déficit de tripulação. Trata-se de um reposicionamento estrutural, com consequências práticas sobre como as empresas alocam orçamentos de recrutamento, estruturam programas de mentoria e constroem trajetórias de carreira.
Para o setor offshore brasileiro especificamente, a dinâmica de oferta de tripulação não é abstrata. A Petrobras e a rede mais ampla de operadores, armadores e contratistas de OSV ativos em águas brasileiras dependem de uma força de trabalho marítima qualificada que já está sob pressão da demanda concorrente — tanto doméstica quanto internacional. A expansão offshore do Brasil, ancorada no desenvolvimento do pré-sal, historicamente exigiu investimento sustentado na formação de tripulações. Qualquer restrição estrutural à oferta global de marítimos treinados acaba se refletindo nos mercados de trabalho locais, nos referenciais salariais e nos fluxos de certificação.
O índice de 1% também possui uma dimensão institucional brasileira. A Marinha do Brasil e a ANTAQ supervisionam a regulação do trabalho marítimo, enquanto a ANTAQ e a ANP, em conjunto, moldam o ambiente operacional para embarcações e instalações offshore. As instituições brasileiras de ensino marítimo — responsáveis por formar os oficiais e praças que tripulam as embarcações de apoio a FPSO's, os platform supply vessels e os anchor-handling tugs — operam dentro de um ecossistema de treinamento que não está isolado das tendências curriculares globais. O modelo Train-the-Trainer descrito na fonte, se adotado em escala internacionalmente, pode influenciar a forma como as instituições brasileiras estruturam seus próprios currículos relacionados à descarbonização.
Há aqui um ângulo de planejamento de força de trabalho que os operadores brasileiros e os gestores de tripulação deveriam acompanhar. Se a indústria global está genuinamente começando a tratar as mulheres como um reservatório de oferta inexplorado — em vez de uma nota de rodapé de conformidade —, o efeito downstream sobre os prazos de disponibilidade de tripulação pode ser relevante em um horizonte de uma década. O setor offshore no Brasil já compete com a frota mercante por oficiais certificados. Ampliar a base de recrutamento, ainda que gradualmente, reduz essa pressão competitiva em um mercado com oferta restrita.
A melhora no índice de bem-estar registrada no relatório — impulsionada por conectividade, condições de bem-estar e atenção à saúde mental — também é pertinente para as operações offshore brasileiras. O acesso à internet a bordo e os padrões de bem-estar em FPSO's e embarcações de apoio têm sido temas recorrentes nas discussões sobre trabalho marítimo no Brasil. Se os referenciais globais estão se elevando, os operadores brasileiros enfrentam pressão implícita para se alinhar, tanto para reter tripulação quanto para permanecer competitivos na contratação de mão de obra marítima internacional sob acordos de bandeira e de tripulação.
A ressalva honesta é que um índice de bem-estar que sobe uma fração de ponto, e marcos de treinamento sendo escalados por programas institucionais, não fecham uma lacuna dessa magnitude rapidamente. O índice de 1% é produto de décadas de barreiras estruturais — infraestrutura física projetada para tripulações masculinas, redes de apoio em terra limitadas e fluxos de recrutamento que historicamente não alcançaram as mulheres em números expressivos. Reconhecer que a indústria está agora tratando isso como um problema solucionável é analiticamente significativo; presumir que será resolvido em qualquer prazo de curto prazo seria prematuro.
CONTEXTO
O ICS Maritime Barometer Report 2025-2026 é uma das pesquisas anuais de sentimento do setor de navegação mais acompanhadas, e seu enquadramento da diversidade de gênero como um vetor de oferta de tripulação — em vez de uma iniciativa isolada — reflete uma mudança mais ampla visível nas discussões da International Maritime Organization e na forma como as sociedades classificadoras e os estados de bandeira estão abordando os padrões de tripulação.
Para os profissionais offshore brasileiros, o paralelo que vale acompanhar é como a Transpetro, os operadores de OSV e o segmento de embarcações de apoio offshore adaptam suas próprias estratégias de tripulação à medida que os marcos de treinamento globais evoluem. A interseção entre o retreinamento impulsionado pela descarbonização e a ampliação do recrutamento é onde o quadro de força de trabalho de médio prazo será moldado — e a escala da atividade offshore do Brasil significa que o país será uma variável significativa nessa equação.