Perda de carga de 600 toneladas em MODU no Mar do Norte gera notificação de melhoria da HSE
Uma falha no sistema de içamento do Deepsea Atlantic enviou coluna de perfuração e riser ao fundo do mar — e levantou questões sobre a garantia de segurança de equipamentos em unidades de perfuração offshore.
O FATO
De acordo com a Marine Insight, um incidente de segurança a bordo do semi-submersível Deepsea Atlantic, da Odfjell Drilling, resultou na emissão de uma notificação de melhoria pelo UK Health and Safety Executive (HSE) contra o operador, com base em "risco significativo de danos" aos trabalhadores. O evento ocorreu em 18 de abril, enquanto a sonda estava posicionada no campo de Rosebank, aproximadamente 130 km a noroeste das ilhas Shetland. Nenhum trabalhador foi ferido e não foram registrados danos ambientais.
O HSE determinou que quatro motores elétricos do drawworks da sonda — o sistema de içamento utilizado para elevar e baixar cargas pesadas através do derrick de perfuração — desarmaram simultaneamente, causando perda de controle de uma carga superior a 600 toneladas. Os freios de disco de emergência atuaram, mas não conseguiram deter a descida. O movimento descontrolado fez com que o cabo de aço se desenrolasse do tambor e chicoteasse, danificando tanto a estrutura do derrick quanto os equipamentos associados.
O incidente resultou ainda na perda de uma válvula de BOP e de aproximadamente 400 metros de tubulação de riser para o fundo do mar. O HSE apontou duas violações do Health and Safety at Work Act e duas violações das regulamentações de uso de equipamentos, concluindo que a Odfjell não dispunha de sistemas de segurança adequadamente funcionais para os equipamentos de içamento. A Odfjell Drilling reconheceu a notificação e declarou estar trabalhando com os reguladores sobre as constatações.
POR QUE ISSO IMPORTA
Para profissionais offshore brasileiros, a relevância operacional direta de um incidente no Mar do Norte pode parecer limitada em uma primeira leitura. A relevância para o Brasil é, pela própria avaliação da fonte, baixa. Contudo, o modo de falha técnica aqui descrito — desarme simultâneo de múltiplos motores no sistema de drawworks, inadequação dos freios de disco sob carga dinâmica e subsequente perda de BOP e coluna de riser — não é específico de uma geografia. Trata-se de uma categoria de risco presente em qualquer MODU de águas profundas, independentemente de onde opere.
O drawworks é um dos sistemas com maior carga mecânica em uma sonda de perfuração. Em operações em águas profundas, o peso suspenso da coluna rotineiramente supera várias centenas de toneladas, e as consequências de uma descida descontrolada são severas: danos estruturais ao derrick, risco de queda de objetos sobre o piso de perfuração e áreas adjacentes e — como ocorreu aqui — perda de equipamentos de controle de poço para o fundo do mar. O incidente com o Deepsea Atlantic ilustra o que acontece quando o sistema primário de içamento e o sistema de frenagem de emergência atingem simultaneamente seus limites no mesmo evento de falha.
A constatação do HSE de que os sistemas de segurança não estavam "funcionando adequadamente" aponta para uma questão de garantia de manutenção e inspeção, e não para uma questão de projeto. Essa distinção é relevante para operadores e contratistas brasileiros. A frota offshore do Brasil — que abrange FPSOs operados pela Petrobras, MODUs de terceiros sob contrato e um número crescente de sondas de operadores independentes — utiliza a mesma classe de equipamentos. O arcabouço regulatório da ANP para segurança offshore, estruturado em torno do SGSS (Sistema de Gerenciamento de Segurança e Saúde), atribui ao operador o ônus de demonstrar a integridade dos equipamentos. Um incidente como este, ocorrido em um ambiente regulatório maduro como o do Reino Unido, serve como ponto de referência para o que reguladores em outras jurisdições podem investigar durante auditorias.
Há também uma dimensão de cadeia de suprimentos que merece atenção. Sistemas de riser e stacks de BOP perdidos para o fundo do mar representam prazos de reposição e custos significativos. No mercado atual, com a demanda por perfuração em águas profundas sustentada e os prazos de entrega de equipamentos estendidos em toda a cadeia de suprimentos, a perturbação operacional e comercial decorrente de uma única falha de içamento pode ser substancial — muito além do evento de segurança imediato. Contratistas e operadores brasileiros que gerenciam cronogramas de sondas nas bacias de Santos e Campos operam sob restrições de suprimento semelhantes.
Para tripulações de sondas e gestores de HSE que trabalham em MODUs com bandeira brasileira ou contratados no Brasil, a conclusão procedural é direta: a adequação dos sistemas de frenagem de emergência sob condições de carga suspensa máxima merece verificação periódica que vá além das listas de verificação de inspeção de rotina. O caso do Deepsea Atlantic sugere que a capacidade dos freios de disco pode nem sempre ser dimensionada — ou mantida — para suportar o cenário de carga dinâmica plena apresentado por um desarme simultâneo de múltiplos motores. Trata-se de uma hipótese verificável que as equipes de segurança podem incorporar às suas próprias revisões de garantia de equipamentos.
A resposta da Odfjell Drilling — reconhecendo a notificação e engajando-se com os reguladores — reflete a postura padrão e adequada para um contratista que navega por uma constatação regulatória. O processo de notificação de melhoria no Reino Unido é concebido para ser corretivo, e não punitivo nesta fase, e a ausência de feridos significa que o custo humano imediato foi contido. A questão de longo prazo é como os resultados desta investigação serão compartilhados com a indústria, por meio de mecanismos como o sistema de alertas de segurança da IADC ou canais equivalentes, de modo que as lições técnicas cheguem aos contratistas de perfuração que operam em outras jurisdições.
CONTEXTO
O campo de Rosebank tem sido foco de atenção regulatória e jurídica no Reino Unido por razões não relacionadas a este incidente, o que torna qualquer perturbação operacional ali mais visível do que seria em outro local. Essa visibilidade, contudo, não altera o caráter técnico do que ocorreu: uma falha no sistema de içamento com consequências que se estenderam do derrick ao fundo do mar.
Eventos de queda de objetos e perda de controle em operações de perfuração têm historicamente impulsionado atualizações relevantes nos padrões da indústria, incluindo orientações da IADC e da API sobre sistemas de frenagem de drawworks. Se este incidente produzirá um ciclo de atualização semelhante dependerá do que a investigação completa revelar sobre a causa raiz — se foi uma lacuna de manutenção, uma questão de margem de projeto ou uma falha de procedimento operacional. Profissionais de segurança brasileiros se beneficiariam de acompanhar as constatações publicadas pelo HSE à medida que forem disponibilizadas.