Porto do Açu e Perenco avançam na eletrificação offshore da Bacia de Campos
Um cabo submarino de 80 km pode mudar a lógica de geração de energia em plataformas de águas rasas — e sinalizar um novo mercado para o complexo portuário fluminense.
THE NEWS
According to Petronotícias, Porto do Açu e a operadora Perenco Brasil assinaram, na terça-feira (22), durante o evento ROG.e, uma carta de intenções para o desenvolvimento do que as partes descrevem como o primeiro projeto de eletrificação de plataformas offshore na Bacia de Campos. O acordo envolve o fornecimento de energia a partir de terra para as unidades da Perenco nos Polos Pargo e Cherne, localizados em águas rasas, por meio de um cabo submarino de 80 quilômetros conectado a uma subestação terrestre no Porto do Açu, em São João da Barra (RJ).
O projeto prevê consumo inicial de 35 MW, com potencial de expansão para até 60 MW em quatro anos. A expectativa é que o sistema entre em operação até o primeiro trimestre de 2028. Atualmente, as plataformas nos dois polos utilizam energia gerada localmente por turbogeradores. O Porto do Açu disponibilizará área para a construção da subestação e o direito de passagem para o cabo, que seguirá até as unidades offshore. A Perenco também poderá contratar futuramente energia de fontes renováveis no ambiente de contratação livre.
A distribuição da energia nas plataformas será feita a partir da unidade central do Polo Pargo, que redistribuirá a eletricidade para as demais unidades da operadora por meio de uma rede de interconexão já existente. O CEO do Porto do Açu, Eugenio Figueiredo, afirmou que "projetos de eletrificação offshore deste porte ainda são raros no mundo."
WHY IT MATTERS
A carta de intenções entre Porto do Açu e Perenco representa um passo concreto em direção a um modelo operacional que o setor offshore brasileiro discute há anos, mas que raramente avança além do estágio conceitual: a substituição de geração a bordo por fornecimento elétrico a partir de terra. O fato de o acordo ter sido firmado no contexto de um evento focado em energia e operações (o ROG.e) indica que a iniciativa responde a uma demanda crescente do setor por soluções práticas de descarbonização, não apenas a declarações de intenção.
O objetivo declarado do projeto é a redução das emissões de escopo 1 da Perenco no país. Turbogeradores a gás operando continuamente representam uma parcela significativa da pegada de carbono de plataformas de produção — especialmente em campos maduros de águas rasas, onde a eficiência energética tende a ser mais limitada do que em unidades de grande porte. A eletrificação a partir de terra elimina essa fonte de emissão direta, e a possibilidade de contratar energia renovável no mercado livre, prevista no acordo, abre caminho para uma redução ainda mais expressiva da intensidade de carbono das operações.
Do ponto de vista técnico, o projeto apresenta características que merecem atenção do mercado. Um cabo submarino de 80 quilômetros para fornecimento de energia em águas rasas é uma infraestrutura de escala relevante. A decisão de utilizar a plataforma central do Polo Pargo como ponto de redistribuição — aproveitando a rede de interconexão existente — sugere uma abordagem que busca minimizar modificações nas unidades já em operação, o que tem implicações diretas sobre custo e prazo de implementação. Esse tipo de solução de integração, quando bem executado, pode servir como referência técnica para outros operadores com ativos similares na bacia.
Para o Porto do Açu, o acordo representa uma extensão natural de sua estratégia de posicionamento como hub de serviços de baixo carbono para o setor de óleo e gás. O complexo já opera, desde 2024, com fornecimento de energia de terra para rebocadores e embarcações de apoio atracadas no Terminal 1, por meio de iniciativa envolvendo Vast Infraestrutura e Wilson Sons. A eletrificação de plataformas offshore é um passo de maior complexidade e escala, mas segue a mesma lógica: converter a infraestrutura portuária em um ativo de serviços energéticos para operações marítimas. Se o projeto com a Perenco for executado dentro dos parâmetros anunciados, o Porto do Açu consolida uma posição diferenciada no mercado de serviços offshore fluminense.
Para outros operadores com ativos de águas rasas na Bacia de Campos — e há vários, considerando o perfil da bacia —, o projeto funciona como um caso de referência a ser acompanhado de perto. A viabilidade técnica e econômica de um cabo de 80 km em operação comercial, com demanda inicial de 35 MW e expansão projetada para 60 MW, fornecerá dados reais sobre custos de implantação, confiabilidade do sistema e efetividade na redução de emissões. Esses dados têm valor direto para qualquer operador avaliando alternativas à geração a bordo.
Há também uma dimensão regulatória e de mercado a considerar. À medida que a ANP e outros reguladores avançam em exigências relacionadas à intensidade de carbono da produção, soluções como esta tendem a ganhar relevância não apenas como iniciativas voluntárias, mas como respostas a requisitos futuros de licenciamento e renovação de concessões. Operadores que desenvolvem experiência prática nesse tipo de projeto constroem vantagem de aprendizado que pode ser relevante em negociações com reguladores e em processos de extensão de vida de campos.
CONTEXT
A eletrificação de plataformas offshore a partir de terra não é inédita no cenário global — o modelo é utilizado em campos do Mar do Norte há décadas, com destaque para iniciativas na Noruega, onde a regulação de carbono impulsionou a adoção em escala. No Brasil, o debate sobre a eletrificação de plataformas do pré-sal também está em curso, mas envolve desafios de distância e profundidade lâmina d'água substancialmente maiores. O caso dos Polos Pargo e Cherne, em águas rasas e com a infraestrutura portuária do Açu como âncora, representa uma configuração logisticamente mais favorável — o que pode explicar por que este projeto avançou para uma carta de intenções antes de iniciativas similares em outros contextos da bacia.
O fato de o acordo ter sido firmado como carta de intenções — e não como contrato definitivo — indica que etapas relevantes de engenharia, licenciamento e estruturação financeira ainda estão por ser concluídas. O prazo até o primeiro trimestre de 2028 é ambicioso para um projeto desta complexidade, e o mercado acompanhará o ritmo de evolução das próximas fases com interesse.
Source: PETRONOTÍCIAS