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Energia Renovável

EPE mapeia três zonas prioritárias para eólica offshore ao longo do litoral brasileiro

Nova nota técnica identifica regimes de vento distintos em 20 clusters costeiros — com implicações concretas para a integração à rede e o planejamento de projetos.

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Aerial view of offshore wind turbines along a tropical coastline, representing Brazil's three priority wind energy zones identified by EPE.
Photo: Unsplash / Pedro Menezes

O FATO

Conforme apurado pela Petronotícias, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicou uma nota técnica identificando três áreas prioritárias — no Nordeste, no Rio de Janeiro e no Sul — como as zonas mais favoráveis ao desenvolvimento da eólica offshore ao longo do litoral brasileiro. O estudo utilizou bases de dados públicas e mapeou 20 clusters eólicos ao longo da costa, com velocidades médias de vento variando entre 7 m/s e 10 m/s nas regiões destacadas.

Além de identificar as áreas de maior potencial eólico, a análise da EPE caracteriza o comportamento do vento em cada região quanto à sazonalidade, à variação intradiária, à direção predominante e à dispersão de velocidade. O estudo foi coordenado por Reinaldo da Cruz Garcia, diretor de Estudos de Energia Elétrica da EPE. A agência observa que os ventos ao longo da maior parte do litoral brasileiro tendem a seguir a linha costeira, com destaque para o Nordeste pela influência particularmente estável dos alísios.

Um padrão geral observado em todos os clusters é que os ventos mais intensos tendem a ocorrer no segundo semestre do ano, enquanto as menores velocidades são tipicamente registradas durante o período diurno, especialmente no início da tarde. A EPE destaca que "a análise buscou consolidar as informações disponíveis e iniciar o preenchimento de lacunas de conhecimento sobre os recursos eólicos offshore no Brasil".

POR QUE ISSO IMPORTA

Este estudo não é um marco regulatório nem um instrumento de licenciamento — trata-se de um exercício de caracterização de recursos. Mas para um setor que aguarda clareza regulatória sobre a eólica offshore no Brasil, um conjunto de dados públicos com esse nível de rigor carrega peso que vai além do seu escopo imediato. Ele fornece uma referência técnica comum que desenvolvedores, reguladores, operadores de rede e financiadores podem utilizar na avaliação da viabilidade de projetos, e sinaliza que a EPE está construindo ativamente a base analítica para um futuro regime de licenciamento.

Os três hotspots identificados apresentam perfis de risco significativamente distintos para os desenvolvedores de projetos. O cluster do Nordeste — abrangendo os Clusters 4 a 8, entre o Piauí e o Rio Grande do Norte — oferece as maiores velocidades médias de vento do estudo, com forte consistência direcional atribuível à influência dos alísios. A amplitude sazonal é pronunciada: a EPE reporta velocidades médias de aproximadamente 11 m/s entre agosto e outubro, recuando para cerca de 6 m/s entre março e maio. Essa variabilidade é uma variável de planejamento que desenvolvedores e operadores de rede precisarão incorporar nas projeções de fator de capacidade e na modelagem de despacho.

O hotspot do Rio de Janeiro, correspondente ao Cluster 15 no litoral norte do estado, apresenta um perfil distinto. As velocidades de vento são elevadas e direcionalmente consistentes, mas a distribuição de velocidade é mais dispersa entre as faixas de frequência. A vantagem compensatória é a baixa variabilidade intradiária — característica que reduz a incerteza de previsão de curto prazo e pode tornar esse cluster mais compatível com os requisitos de balanceamento da rede. As velocidades médias mensais variam de aproximadamente 7 m/s na janela de março a junho para cerca de 10 m/s entre julho e fevereiro, uma oscilação sazonal mais estreita do que a observada no Nordeste.

O hotspot do Sul — Cluster 20, estendendo-se do sul de Santa Catarina ao Rio Grande do Sul — opera com a menor sazonalidade dos três, com uma variação de velocidade ao longo do ano de aproximadamente 2 m/s. Seu perfil intradiário está entre os mais estáveis de todos os 20 clusters analisados. A contrapartida é uma maior dispersão tanto de velocidade quanto de direção, que a EPE identifica como um fator capaz de dificultar a previsibilidade do recurso. Para a cadeia de fornecimento offshore, essa região também suscita questões sobre lâmina d'água e condições metoceanográficas que o estudo atual, focado na caracterização do recurso eólico, não aborda.

Para operadores e empresas de serviços offshore brasileiros, a relevância deste estudo vai além da narrativa de transição energética. O desenvolvimento da eólica offshore — em particular a eólica offshore flutuante, necessária em águas mais profundas — mobiliza muitas das mesmas competências e cadeias de fornecimento do setor de óleo e gás: engenharia subsea, logística marítima, embarcações de içamento pesado, sistemas de ancoragem e instalação de cabos dinâmicos. Empresas já atuantes no offshore de O&G no Brasil estão posicionadas para avaliar onde suas capacidades se intersectam com a demanda emergente de eólica offshore, especialmente se o arcabouço regulatório avançar em direção ao licenciamento.

Do ponto de vista da integração à rede, a observação da EPE de que os três hotspots apresentam perfis sazonais e diurnos distintos é analiticamente relevante. O Sistema Interligado Nacional (SIN) já gerencia intermitência significativa proveniente da eólica onshore, concentrada no Nordeste. A eólica offshore proveniente de múltiplas zonas costeiras com perfis de geração diferenciados poderia, em princípio, oferecer complementaridade — embora o grau em que esse potencial se concretize dependa da infraestrutura de transmissão, aspecto que o estudo atual não avalia.

O reconhecimento explícito do estudo de que está preenchendo lacunas de conhecimento e convocando pesquisas adicionais também sinaliza a direção da agenda analítica. A caracterização de recursos é o primeiro passo; o que se segue tipicamente inclui estudos de viabilidade técnico-econômica, avaliações de linha de base ambiental e estudos de conexão à rede. O ritmo em que essas etapas subsequentes forem conduzidas determinará se os clusters aqui identificados se traduzirão em projetos bankable dentro de um horizonte temporal relevante.

CONTEXTO

O Brasil vem desenvolvendo seu arcabouço regulatório para a eólica offshore de forma mais gradual do que alguns mercados comparáveis. O exercício de mapeamento de clusters da EPE é consistente com o trabalho analítico preparatório que precedeu o licenciamento da eólica offshore em outras jurisdições, onde atlas de recursos e notas técnicas dessa natureza informaram tanto o desenho regulatório quanto as decisões iniciais de localização de projetos.

O foco do estudo em dados públicos e sua publicação como nota técnica aberta refletem o papel da EPE como instituição pública de pesquisa — os resultados estão disponíveis simultaneamente a todos os participantes do mercado, o que é relevante para desenvolvedores em diferentes estágios de suas estratégias para a eólica offshore no Brasil.

Fonte: PETRONOTÍCIAS

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