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Renewable Energy

Biodiesel marítimo ganha tração no debate brasileiro de descarbonização

Na Fenasucro 2026, operadores e produtores de biodiesel convergem sobre o biobunker como alternativa imediata às metas da IMO — com implicações diretas para a cabotagem e o offshore brasileiro.

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Embarcação de apoio offshore atracada em porto, com equipamentos de abastecimento de combustível ao fundo, representando o potencial de adoção de biodiesel marítimo na frota offshore brasileira.
Image: AI-generated (Flux 1.1)AI-generated

THE NEWS

According to Petronotícias, a Binatural, uma das principais produtoras de biodiesel do Brasil, participou da Fenabio — conferência de bioenergia realizada dentro da programação da Fenasucro & Agrocana 2026, em Sertãozinho (SP). O evento, descrito como a maior feira mundial exclusivamente dedicada à cadeia de bioenergia, reuniu mais de 600 marcas expositoras, cerca de 3 mil produtos e visitantes de mais de 80 países. O diretor comercial da Binatural, Manuel Viveiros, argumentou que a indústria brasileira de biodiesel já dispõe de escala, tecnologia, capacidade instalada e disponibilidade de matérias-primas para ampliar sua contribuição à descarbonização em setores como transporte marítimo, ferroviário e geração termelétrica.

No painel "Biobunkers: oportunidades para as bioenergias", Carlos Alberto Meirelles Marçal, diretor de Transição Energética da Petrobras, destacou o uso de misturas de combustíveis fósseis com biodiesel como uma das soluções mais imediatas para a navegação, sem exigir grandes adaptações em navios ou portos. Marçal citou o B24 — mistura com 24% de biodiesel já em comercialização — como exemplo capaz de reduzir cerca de 20% nas emissões de carbono, com perspectiva de avanço para o B30.

Nos painéis sobre biogás, especialistas estimaram a capacidade produtiva brasileira de biometano em 44 bilhões de metros cúbicos, com quase 50% desse potencial associado ao setor bioenergético. O volume representaria, segundo as projeções apresentadas no evento, cerca de R$ 320 bilhões em investimentos nos próximos anos.

WHY IT MATTERS

O transporte marítimo consome, conforme apresentado no evento, aproximadamente 300 bilhões de litros de combustíveis por ano e responde por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. A Organização Marítima Internacional (IMO) estabeleceu metas de redução progressiva da intensidade de carbono do setor, com horizonte de emissões líquidas zero por volta de 2050. Para operadores de embarcações de apoio offshore, plataformas com propulsão própria e navios de cabotagem que operam no Brasil, esse cronograma regulatório já é uma variável de planejamento — não uma perspectiva distante.

O argumento central apresentado na Fenabio tem peso prático para o setor offshore: o biodiesel em blendagem com diesel marítimo convencional não requer modificações significativas nos sistemas de propulsão ou nos tanques de combustível das embarcações existentes. Para uma frota de PSVs, AHTSs e embarcações de cabotagem que opera com motores de ciclo diesel de quatro tempos ou dois tempos, a incorporação de misturas como B24 ou B30 é tecnicamente viável sem retrofits de grande porte — diferentemente de alternativas como metanol, amônia ou GNL, que exigem adaptações substanciais de infraestrutura a bordo e em terra.

A presença da Petrobras no painel — representada por seu diretor de Transição Energética — sinaliza que a companhia está avaliando o biobunker não apenas como tema de política energética, mas como solução operacional. A Petrobras opera uma das maiores frotas de apoio marítimo do mundo, além de ser a principal compradora de serviços de navegação offshore no Brasil. Sua posição na cadeia define, em grande medida, o ritmo de adoção de qualquer combustível alternativo no segmento. O fato de Marçal ter citado o B24 como produto já em comercialização — e não como projeto-piloto — indica que a discussão avançou além do estágio conceitual.

Para fornecedores de combustível marítimo e operadores de terminais portuários que atendem embarcações offshore, o cenário de expansão do biobunker representa tanto uma oportunidade de reposicionamento quanto um desafio logístico. A disponibilidade de biodiesel em blendagem nos portos de apoio offshore — como Macaé, Vitória e Rio de Janeiro — dependeria de adequações na cadeia de abastecimento e de acordos comerciais com produtores. A escala de produção brasileira, argumentada por Viveiros, é um ativo relevante nesse contexto: o Brasil já opera com uma das maiores capacidades instaladas de biodiesel do mundo, com matérias-primas diversificadas e cadeia produtiva consolidada.

O potencial de biometano de 44 bilhões de metros cúbicos estimado no evento abre uma segunda frente de interesse para o setor offshore: a geração de energia em plataformas e a substituição de diesel em grupos geradores de embarcações de apoio. Embora a logística de fornecimento de biometano para unidades offshore seja mais complexa do que a de biodiesel líquido, o volume estimado de investimentos associados ao desenvolvimento dessa cadeia sugere que o mercado está se estruturando para além do segmento terrestre.

Do ponto de vista regulatório, a ANP já estabelece mandatos de mistura de biodiesel para o diesel rodoviário. A extensão dessas obrigações ou a criação de mandatos específicos para o diesel marítimo é uma discussão que ainda não está formalizada, mas que ganha substância à medida que a pressão da IMO se intensifica e que a indústria demonstra viabilidade técnica e comercial. Operadores offshore que anteciparem esse movimento estarão em posição mais confortável para atender eventuais requisitos regulatórios futuros — tanto da IMO quanto de uma eventual regulamentação nacional complementar.

CONTEXT

A discussão sobre biobunker não é exclusiva do Brasil. Armadores europeus e asiáticos já conduzem testes com biodiesel marítimo (FAME e HVO) em rotas comerciais, e a DNV publicou orientações técnicas sobre compatibilidade de blendagens com sistemas de combustível existentes. O diferencial brasileiro está na combinação de capacidade produtiva doméstica, diversidade de matérias-primas e uma frota offshore de grande porte que poderia funcionar como mercado âncora para o desenvolvimento do segmento de biobunker no Atlântico Sul.

O debate na Fenasucro 2026 representa um ponto de convergência entre a agenda de descarbonização marítima — historicamente conduzida por reguladores internacionais e armadores globais — e a cadeia produtiva de biocombustíveis brasileira, que até recentemente mirava quase exclusivamente o mercado rodoviário. Essa convergência, ainda em estágio inicial, merece acompanhamento próximo por parte de operadores, armadores e reguladores que atuam no offshore nacional.


Source: PETRONOTÍCIAS

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