Nexans inicia produção de cabos HVDC de 525 kV para conexão eólica offshore na Alemanha
O projeto LanWin2 avança com cabos de alta tensão em corrente contínua — tecnologia que o Brasil ainda não opera em escala, mas que começa a entrar no radar do setor.

THE NEWS
According to Offshore Energy, Nexans iniciou a produção de cabos submarinos de alta tensão em corrente contínua (HVDC) operando a 525 kV para o projeto de conexão eólica offshore LanWin2, na Alemanha. Trata-se de um contrato de infraestrutura de transmissão elétrica associada à expansão da capacidade eólica offshore no Mar do Norte.
O projeto LanWin2 integra o esforço contínuo de ampliação da malha de transmissão elétrica submarina na Europa, onde a geração eólica offshore em alto mar exige soluções de exportação de energia de longa distância e alta capacidade. A tecnologia HVDC a 525 kV representa o patamar mais elevado atualmente em produção comercial para esse tipo de aplicação.
A Nexans, com capacidade de fabricação de cabos submarinos estabelecida na Europa, conduz a produção para atender ao cronograma de instalação do projeto.
WHY IT MATTERS
Para o leitor de BrazilOffshore, a relevância imediata deste contrato é limitada: o LanWin2 é um projeto europeu, com cadeia de fornecimento e regulação próprias. No entanto, o avanço da tecnologia HVDC de alta tensão em projetos de eólica offshore tem implicações estruturais que vale monitorar, especialmente à medida que o Brasil avança — ainda que em ritmo distinto — na discussão sobre geração eólica offshore em seu próprio território.
O Brasil ainda não possui projetos de eólica offshore em operação comercial. O marco regulatório do setor, objeto de debate no Congresso e na ANEEL, ainda está sendo consolidado. Ainda assim, o país já conta com blocos prospectivos identificados em diversas bacias costeiras, e consórcios com interesse declarado no segmento. A questão da infraestrutura de transmissão submarina — incluindo a escolha entre corrente alternada (HVAC) e corrente contínua (HVDC) — será central quando projetos de maior escala avançarem para a fase de engenharia.
A tecnologia HVDC torna-se economicamente mais atrativa à medida que a distância entre o parque gerador e o ponto de conexão em terra aumenta. Em geral, projetos localizados a mais de 80 km da costa tendem a favorecer soluções HVDC em relação ao HVAC, pelo menor nível de perdas elétricas em longas distâncias. Parques eólicos offshore em águas profundas — cenário plausível para o Brasil, dada a batimetria de suas costas — potencialmente se enquadrariam nessa lógica. Isso coloca fabricantes de cabos HVDC, como a Nexans, no horizonte de interesse de operadores e desenvolvedores brasileiros.
Do ponto de vista da cadeia de fornecimento local, o Brasil não dispõe atualmente de capacidade instalada para fabricar cabos submarinos HVDC de alta tensão. A eventual demanda nacional dependeria de importação ou de investimento em capacidade produtiva doméstica — uma decisão com implicações para política industrial e para o conteúdo local que a ANP e o BNDES tendem a observar com atenção em novos segmentos energéticos. A experiência europeia, onde a concentração de capacidade de fabricação em poucos players gerou gargalos de entrega, é um dado relevante para o planejamento brasileiro.
Por fim, há um ângulo de competência técnica. Engenheiros e empresas brasileiras que atuam em subsea — cabos umbilicais, risers, linhas de ancoragem — possuem base técnica adjacente, mas não diretamente transferível para cabos de potência HVDC de 525 kV. A curva de aprendizado e certificação é significativa. Projetos como o LanWin2 funcionam, nesse sentido, como referências de especificação técnica que o mercado brasileiro poderá adotar como benchmark quando seus próprios projetos avançarem para FEED e EPC.
CONTEXT
A Europa concentra hoje a maior parte da capacidade instalada e em construção de eólica offshore do mundo, com o Mar do Norte funcionando como laboratório de escala para tecnologias de transmissão submarina. O avanço para tensões de 525 kV — acima do padrão anterior de 320 kV que dominou a geração anterior de projetos HVDC — reflete tanto o aumento da potência dos parques quanto a necessidade de reduzir o número de cabos e infraestrutura associada para transmitir volumes crescentes de energia.
No contexto brasileiro, o acompanhamento desse desenvolvimento tecnológico é relevante não apenas para o segmento de eólica offshore, mas também para possíveis interconexões elétricas submarinas entre regiões do litoral brasileiro — uma discussão que ainda está em estágio inicial, mas que já aparece em estudos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Source: OFFSHORE ENERGY